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Que cultura queremos?

Entendemos a cultura não apenas como a forma de expressão das relações e sentimentos humanos, mas também como um poderoso instrumento político. O controle de sua produção e do acesso a ela é elemento essencial para manter a dominação dos povos e a concentração de poder. A cultura restrita e limitada pela lógica mercantil entope de resignação as veias pelas quais corre a criatividade humana e bloqueia as possibilidades de produção diversa e abrangente que o desenvolvimento cultural livre exige. A cultura genuinamente livre depende de autonomia, acesso universal e livre manifestação. Não pode ser determinada por direcionamentos e restrições mercantis, e deve garantir a sobrevivência justa e solidária do autor.

Mas, justamente por suas características políticas e sociais, não basta que apenas o produto cultural tenha essas características. É necessário que todo o processo de criação e difusão seja livre, garantindo aos sujeitos sociais condições suficientes para criarem e acessarem todos os bens culturais. A cultura livre é, portanto, um passo na construção de uma sociedade livre.

Assim, não podemos confundir. Reivindicamos uma cultura que não seja apenas gratuita, mas sim genuinamente livre. Livre das amarras do mercado, das imposições do Estado, das limitações econômicas e dos interesses corporativos. Não queremos uma produção cultural que sirva aos ‘novos modelos de negócios’, nos quais as liberdades de acesso aos bens são mantidas mas o circuito de produção mercantil se recompõe. A cultura livre deve, por um lado, garantir a diversidade sem se submeter à lógica da indústria cultural e, por outro, garantir o acesso livre, gratuito e não mercantil aos bens culturais.

Ao mesmo tempo, é essencial pensar a sustentabilidade e a construção dos criador@s livres dessa cultura, mesmo dentro dos limites do atual sistema econômico. Precisamos, para começar, combater o jabá e pensar um mercado baseado nos verdadeiros princípios da economia solidária, buscando a autogestão e a diversificação do acesso da massa às culturas de qualidade.

Devemos questionar os modelos de publicidade e das concessões dos meios de comunicação, que acabam produzindo falsos desejos e uma cultura artificial, beneficiando apenas os artistas que se submetem à lógica da indústria. Sem sujeitos que buscam a emancipação não há pensamento crítico suficiente para romper com as imposições da indústria cultural.

Por isso, precisamos fortalecer um movimento de cultura livre que seja contra esse atual modelo, que seja autônomo, genuíno e intimamente ligado às questões políticas e às relações sociais e humanas. Queremos uma cultura livre que seja, também, conhecimento livre. Ela deve incorporar a luta pela livre determinação dos povos originários, de suas culturas e costumes. Deve brigar pelo fim das patentes, pelo acesso universal à saúde e à educação. Pela produção saudável e racional de sementes, plantas e alimentos. A cultura livre é um bem comum e deve fazer parte do processo de construção do bem viver, que tem como princípio fundamental o zelo a todo o tipo de vida.

A hora é agora

Vivemos um momento de definição do que é o acesso e a produção da cultura. As novas tecnologias, por terem a capacidade de ampliar as possibilidades de democratização da comunicação, da cultura e do conhecimento, passam por um processo de institucionalização e cercamento legal que, ao contrário, podem servir como mecanismos de vigilância e controle. As leis internacionais e nacionais que regulamentam o tráfego de informações são cada vez mais rígidas e engessam, por sua vez, as possibilidades criativas dos seres humanos, com objetivos claros de controlar as mentes das massas. Assim, é urgente nossa manifestação.

Sob essa perspectiva, convocamos organizações, coletivos e indivíduos para discutir o projeto da cultura livre que queremos no Diálogo Interplanetário de Cultura Livre, que acontecerá durante o Fórum Social Grande Porto Alegre 10 anos, na cidade de Canoas, entre os dias 25 e 29 de janeiro de 2010.

Queremos dar início à construção internacional de um espaço autônomo para a discussão de uma cultura contestátoria, que abarque aqueles em busca da emancipação e da liberdade na produção cultural e que tenha vistas a um Fórum Internacional de Cultura Livre, no segundo semestre de 2010.

O Diálogo Interplanetário de Cultura Livre já conta com articulações em países como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Brasil e está aberto a tod@s que quiserem contribuir. Será um espaço autogestionado de debates e produção cultural, com feiras de livros, shows de música independente, debates sobre a propriedade intelectual, produção cultural, transmissões de rádios e Tvs comunitárias, oficinas de software livre e muito mais – ou o que aparecer.

fonte:

http://www.acaoeducativa.org.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=2149&Itemid=149

Relato do meu amigo Rodrigo no site do partido pirata:

http://www.partidopirata.org/node/272

Fotos



Participação colaborativa do Capi (Bruno Neira) no Barcamp’arte livre postado no blog coletivo durante o Campus Party 2009

elementos para uma teologia pirata 0.1a

#1
existe miséria. e porque ela existe, e somos privados do mundo que a publicidade promete, todo consumo é uma conquista, todo canal livre é uma regalia. puxa, como é bom assistir novela em p2p. não pagar nada para ouvir o hit do momento. usar outro sistema operacional fechado e contrabandeado. pequenas alegrias, funcionam como anti-depressivos e radiofreqüência: nos mantém em nosso lugar. este é o jeito que o mundo é, onde existe uma chance de termos, e uma boa chance de não termos.
não existe miséria. o mundo inteiro é nosso, logo de início, se não cairmos em mãos erradas. a pirataria, os furtos, as caronas, o software livre, as orgias, as carícias, todo canal livre para pensar, sentir e viver deve servir para nos acostumar à idéia: o mundo é nosso. não comemos dinheiro, como não recebemos dele amor. precisamos antes de comida e companhia e se procurarmos, os encontraremos mais facilmente que o dinheiro. livres, procurando o que precisamos, em breve perceberemos: não queremos esse consumo. nos faz infeliz o ritmo de renovação da moda, da tecnologia, da música e dança. nos faz infeliz a publicidade que rejeita nossa sexualidade, nossa alimentação, nossa colaboração, nossa experimentação; embora venda algo que maquia de erotismo, satisfação, companhia e inovação.
se não precisassemos mais trabalhar, viveriamos breves férias. depois saíriamos para fazer algo. igualmente, se não tivermos nosso caminho obstruído com relação a representação do mundo, a descobririamos. e depois de desmascará-la, nos ocupariamos de criar algo para nós mesmos.

#2
no desenho do mundo ao nosso redor está a história do que se experimentou e o desejo do que poderia ser. se isto é evidente no software livre, deveria ser ainda mais explicito em nossos artefatos cotidianos. a bicicleta evoluiu atendendo aos ciclistas e bicicleteiros, mas o modelo de hoje está longe do ideal. a publicidade entrou no meio da produção, e o que é popular hoje nos faz andar curvados e ameaça nossa fertilidade. não devemos temer a bicicleta e preferir o carro (talvez essa seja a mensagem do desenho atual): devemos redesenhar nossa bicicleta (talvez esta seja a verdadeira mensagem do desenho atual).
em tradições e expectativas, tudo ao nosso redor é digno de atenção. re-desenhar é urgente e gostoso, é semente para as comunidades mais intensamente conectadas. mas não queremos profissionalização, apenas criatividade. criar é hackear, é pensar algo novo, testar, sentir e decidir. profissionalizar é consumir a criação, não diferir, seguir um modelo e ajustá-lo ao mercado. esqueçam, se possível. o novo desenho não se pode escravizar. não componhamos músicas para vender, ou mesmo para ouvir. componhamos para tocar, seja esta nossa estética. os ouvidos todos existem.
criar traz às novas expectativas um lugar no mundo. traz também a possibilidade de um novo mercado, de uma nova indústria, de um novo modelo de propriedade, privação e consumo. não nos iludamos, tudo isto é mais do mesmo. o capitalismo é sim o mesmo esqueleto de sempre, tão velho quanto o desejo de lucrar. mas ainda mais velho que este desejo é O desejo e A revolta. desejamos desde que nascemos, nos revoltamos assim que percebemos. deixemos de lado o mercado e suas drogas, e tratemos de novo disto que nos compõe.

#3
nem tudo o que fazemos é óbvio, embora seja assim que orientamos todo nosso plano de vida. é claro que desejamos estudar, nos formar, trabalhar, ganhar bem, constituir familia, envelhecer, morrer o mais tarde possível. não apenas é tudo mentira, como nos custa caro, abandonar os sonhos, as utopias e cosmogonias, toda nossa filosofia, em troca de uns trocados, um espaço na engrenagem do mundo, e a certeza de que seremos substituídos um dia pelos próximos.
tenha horror ao óbvio. arrepie-se diante da agenda previsível. então assuste-se com a representação do mundo. revolte-se com as mulheres da publicidade, com os cheiros que a televisão vende, com os grandes feitos do cinema. as músicas e filmes de guerra dizem o que? somos pacifistas, porque é tão gostoso este material? ou não é? é desejar algo intenso o que nos faz ver intensidade neste material. é desejarnos representados que nos faz ver representação alguma em tudo isto que consumimos. é ilusão, só vamos estar representados em nossa representação. só nos fará intensos a nossa realização intensa.
a realização se dá na resposta às tradições e às expectativas. não somos artefatos, mas tampouco estamos acima de nossa natureza. somos parte feitor, parte feitos. parte hard, parte soft, somos ciborgues a partir do momento que percebemos, embora aceitemos e processemos ordens desde sempre. o que há de se aceitar é que somos parte do que nos cerca, e tudo que tomamos para nós nos compõe também. mas não há de se aceitar nada nisso: redesenhar o que nos cerca e o que tomamos para nós é urgente. precisamos ser para além de nosso espaço-corpo. não queremos ser felizes sozinhos.

#4
redesenhar e criar são parte do esforço intenso de abandonar a representação do mundo, rumo a uma liberdade desejada, expressiva da nossa humanidade, que não se compromete à representação porque é vida em si mesmo, não promete mais nada a ninguém. e embora seja desta qualidade, exige um esforço compreensivo, de toda diferença, de toda diversidade, que se entenda a ponto de se tolerar (o discurso pequeno), a ponto de se amar (o verdadeiro discurso), a ponto de colaborar e tecer entre si os caminhos para realizar-se, resistindo às promessas da representação, algo autônomo, local e temporário, mas também significativo para todo esforço. sejamos nossa própria tradição nestas realizações, façamos do nosso desejo e revolta a nossa expectativa. tudo isto é fazer do mundo (e não de sua representação) algo vivo, algo que possamos amar. tudo o mais é fetiche, é amar algo que não vive, é dedicar-se a nada.
para costurar esta rede que é primeiro de sonho, desejo e revolta, mas então também é de resistência, para costurá-la é necessário acreditar e espalhar a crença. de que outro mundo é possível, que existe, e é preciso expressá-lo na experiência imediata da vida. em tudo que somos oprimidos é fácil imaginar esta vida: expressar nossa sexualidade em paz, assumir nossa etnia sem medo, saciar nossa fome e cantar algo que faça sentido para nosso coração. em tudo o mais, fará sentido conforme experimentemos – é possivel amar e manter nossas casas limpas.
para abandonar o trabalho, as tarefas forçadas, as obrigações todas, é urgente uma educação social, que se orienta a liberdade inclusive espiritual, que seja radical em nunca esquecer o desejo, e em realizar a revolta abandonando a representação. tão radical que não tenha lugar na representação do mundo, e ainda assim a amedronte a ponto de ceder espaço. onde quer que esteja o educador radical, com apenas o cheiro da revolta, é possível multiplicar. é possível atender o desejo na liberdade criativa, realizar o ato de revolta e multiplicar a educação social radical na forma de sonho. trata-se antes de vida que de um projeto de partido.
é mais, é só um ponto de partida. o desejo, a revolta e o sonho todos já conhecemos, e dispensam nomes.



{novembro 5, 2009}   Consciente coletivo

Graças à internet, cada vez mais o conhecimento e as artes são produzidos coletivamente. Bem-vindo à cultura da colaboração. Junte-se a nós.

Socializou geral: a criação individual (e, eventualmente, o egoísmo) passou a ser questionada por uma série de artistas, produtores de conteúdo e até comerciantes. São os tempos, como dizem alguns, da “cultura wiki” (de Wikipédia, a enciclopédia online construída por milhões de autores anônimos). Mas será mesmo possível que o conhecimento seja criado coletivamente? Melhor dizendo: quais são as fronteiras entre individualidade e coletivo na solução de um problema? Dentro da nova consciência de socialização do pensamento trazida pelo colaboracionismo na web, é possível sobreviver sendo um individualista extremo? No telecatch entre competição e colaboração, quando é que acontece a passagem de bastão entre a mentalidade das Décadas do Eu (70, 80, 90) para a nova mentalidade colaborativa dos anos 00? E afinal: existe mesmo uma criatividade coletiva? Se sim, ela pressupõe o fim da autoria?

Muitas perguntas. Mas façamos uma diferença clara, binária, entre a inteligência individualista, da obra fechada, do ponto fixo, e a colaborativa, da obra aberta, da rede. Sobre esta segunda é fundamental a Obra Aberta de Umberto Eco, revolucionário estudo da teoria da informação lançado, não por acaso, no ano de 1968. Ali o ensaísta italiano propõe uma divisão entre o discurso aberto (pense na internet, de múltiplos emissores e receptores) e no discurso persuasivo (pense na TV, um só emissor, vários receptores).

Quando sugeria a “obra aberta”, Eco apenas intuía a formulação de um modelo de produção somente viável graças à nossa aceleração tecnológica. O impacto da internet tornou possível tanto ideias como o open source (do software aberto, como o Linux) quanto a disseminação de redes sociais que sustentam a ideia de uma imaginação colaborativa: nas artes plásticas, na música, na mídia, no comércio. (Ainda falta a política, mas chegaremos lá.)

Essa verdadeira inteligência colaborativa foi definida nos termos de hoje pela cientista norte-americana Vera John-Steiner, em Creative Collaboration (“Colaboração criativa”, sem edição brasileira). A autora investiga como as ideias surgem através da observação do método de trabalho de parcerias famosas, como entre os artistas Georges Braque & Pablo Picasso, ou os físicos Albert Einstein & Niels Bohr. Por certo o estudo de Vera seria ainda mais interessante se ela se detivesse no curioso caso dos escritores argentinos Jorge Luis Borges & Adolfo Bioy-Casares, que narravam “sob uma terceira persona”, um tal Bustos Domecq. Ou, em exemplo mais próximo, na intrigante maneira como os jovens escritores brasileiros Vanessa Barbara & Emilio Fraia construíram uma identidade literária comum inventando a quatro mãos o elogiado romance Verão de Chibo.

A web abriga diversas iniciativas graças a uma nova “inteligência coletiva

O editor Pesquisando inteligência colaborativa na web (onde mais eu arranjaria tanto assunto?), topei com o blog de Gilberto Jr., um esperto designer de interfaces que se dedica a estudar tanto a ciência das redes quanto orientar um grupo de leitura coletiva da… Bíblia. Atendo-se aos aspectos terrenos da web 2.0, Gilberto indica a leitura de um excelente artigo de Kathy Sierra sobre a sabedoria das multidões. Segundo essa crítica professora de programação e criadora de games norteamericana, aproveitar a inteligência coletiva pode trazer muitos benefícios – desde que não seja necessário um consenso prévio entre a comunidade em questão. Assim, agregase de algum modo a sabedoria de cada indivíduo independente (e a interdependência é a senha aqui). Kathy exemplifica:

• inteligência coletiva é um monte de gente escrevendo resenhas de livros na Amazon. Burrice das multidões é um monte de gente tentando escrever um romance juntos;

• inteligência coletiva são todas as fotos no Flickr, tiradas por indivíduos independentes, e as novas ideias criadas por esse grupo de fotos. Burrice das multidões é esperar que um grupo de pessoas crie e edite uma foto juntas;

• inteligência coletiva é pegar ideias de diferentes perspectivas e pessoas. Burrice das multidões é tirar cegamente uma média das ideias de diferentes pessoas e esperar um grande avanço.

Segundo Kathy, um link não fica em primeiro lugar no Google depois que todos os usuários da internet chegam a um consenso de que aquele link é o melhor. Mas o Google aproveita a inteligência coletiva contando mais pontos para os links que são citados por muitos indivíduos independentes. Por buscar consenso entre os editores dos artigos, a enciclopédia colaborativa Wikipédia poderia ser um fracasso, mas o trabalho dos administradores (tomando decisões nem sempre geradas pelo consenso) determina a qualidade do conteúdo. Isso significa que, mesmo socializada, a inteligência colaborativa não dispensa um eixo organizativo; em outras palavras, é preciso um editor.

A inteligência colaborativa deu origem a uma nova disciplina: a ciência das redes. Um de seus principais divulgadores no país é Augusto Franco, que aliou à dinâmica da educação em rede os pressupostos de otimistas da sociedade da informação, como Pierre Lévy (A Inteligência Coletiva. Por uma Antropologia do Ciberespaço) e Fritjof Capra (A Teia da Vida: uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos). No site Escola de Redes, Franco dá o caminho das pedras: “A ideia é conectar pessoas ou redes de pessoas (nunca instituições hierárquicas) de modo distribuído – o que compreende estrutura (forma de organização distribuída) e dinâmica (modo de regulação pluriárquico). O modo de regulação pluriárquico, compatível com a topologia distribuída, não adota procedimentos e mecanismos que produzam artificialmente escassez, como a votação, o sorteio, o rodízio ou a construção administrada de consenso.” Ou seja, é uma entidade que se auto-organiza a partir de regras fixas.

Nem todo mundo, claro, vê com olhos tão felizes a inteligência coletiva. É o caso de Eugênio Trivinho, professor do programa de estudos pós-graduados em comunicação e semiótica da PUC-SP, autor de A Dromocracia Cibercultural. Dromo, do grego, significa velocidade, marca da contemporaneidade. Trivinho é um cético: “Hoje, temos dispositivos que articulam um corpo ao outro, uma casa a outra, uma empresa a outra. Não obstante, isso não aboliu nossa solidão. Nós somos talvez os seres mais solitários e, por isso, precisamos de vínculo”.

O grupo Como vimos, a internet tornou possível agregar muitos talentos em esforços gerentes (Wikipédia, Linux). Um bom exemplo é a ação coordenada pela agência LiveAD, um braço do Grupo Box1824, pioneiro no Brasil na investigação de tendências da juventude (entre 18 e 24 anos, daí o nome) e mais quente polo de cool hunters (“caçadores de bacaneza”) do país. Para dar publicidade à minissérie Dom Casmurro, exibida na Rede Globo em 2008 – que buscava falar com um público tradicionalmente desconectado da televisão, modernizando o clássico de Machado de Assis –, a agência criou o projeto Mil Casmurros, uma rede social online de leitura coletiva da obra. O livro foi dividido em mil trechos que foram hospedados num site em que qualquer internauta podia escolher e gravar sua leitura direto da webcam. Atores, escritores e outras figuras da cena brasileira começaram gravando seus trechos, para que estimulassem outros leitores. Em um mês a leitura estava completa: foi uma das primeiras e mais impactantes leituras coletivas de um livro na internet – até mesmo faturou um Leão de Ouro no festival de publicidade de Cannes na nova categoria de Public Relations em que qualquer internauta podia escolher e gravar sua leitura direto da webcam. Atores, escritores e outras figuras da cena brasileira começaram gravando seus trechos, para que estimulassem outros leitores. Em um mês a leitura estava completa: foi uma das primeiras e mais impactantes leituras coletivas de um livro na internet – até mesmo faturou um Leão de Ouro no festival de publicidade de Cannes na nova categoria de Public Relations

O autor Além da forte interação com o público, o modelo colaborativo tem uma faceta ainda mais radical: a dissolução da autoria. É fenômeno já velho nas artes plásticas, mas aos poucos vem transitando naquele “território de ninguém” entre a arte e o comércio, entre a marca pessoal e uma solução específica para um cliente. Nesse terreno batalham os coletivos profissionais de fotógrafos. A massificação da oferta de imagens e a saturação dos meios de difusão tradicionais apresentam aos autores a necessidade de gerar novos modelos de representação, capazes de destacar sua produção entre milhões. Assim, os coletivos atuam tanto como banco de imagens como plataforma comum para furar um mercado fechado, ou como máquina de criação conjunta, gerando interessantes sinergias e fóruns de discussão entre os membros da equipe. No Brasil, grupos como o paulistano Cia de Foto e o carioca Fotonauta fazem seus autores desaparecerem por trás de suas lentes – mais ou menos como se Lennon e Mc- Cartney jamais assinassem canções sob seus nomes, e sim sempre como os Beatles.

Voltando à arte, mais poético é o exemplo dos cratemen. São bonecos gigantes, criados a partir de engradados de bebidas, dispostos em diversos lugares da Austrália. Ninguém sabe quem começou a criá-los: parecem ter surgido do nada, no início do século 21. A poesia da intervenção dessa arte urbana não reside nas diversas poses dos cratemen – bonecões pescando, andando de bicicleta, dormindo –, e sim no fato de ninguém reivindicar sua autoria. Seu único objetivo é tirar um sorriso do observador distraído.

Ainda na dúvida sobre quem vence a briga pela criação, se o bloco do eu-sozinho ou os conectados? Fique com um trecho de uma carta de Mário de Andrade, pinçada do blog da Cia de Foto, escrita para Otto Lara Resende, que tinha 22 anos na época. Mário, líder do Modernismo, incitava Otto e colegas (Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos) ao exercício da criação coletiva:

“Queria louvar o grupo que vocês fazem, pela força de cada um, pela diferença de cada um, pelo exercício da amizade que soube escolher sem por isso depender de nenhum estreito ‘espírito de grupo’. Isso é um bem grande, uma felicidade, um exercício digníssimo de vida humana, uma grave modéstia, e um conforto sempre. Como invejo isso em vocês! Talvez tenha sido o que mais me faltou. E os meus companheiros de geração, guardo deles este ressentimento, ainda vinham oitocentistamente tão apegados ao exercício do individualismo, nesta terra sem tradições nem raciais nem culturais, que jamais pudemos viver os benefícios, os confortos, as forças do grupo. Vocês também não possuem tradições nem raciais nem culturais que permitam só por si o exercício do grupo. Mas já têm maior consciência dos coletivos, que o sofrimento deste tempo novo lhes dá. Já não estão enceguecidos pela mania vaidosa do exercício interior dos individualistas. São individualistamente caracterizados, e tão diferentes mesmo uns dos outros, mas nesse exercício exterior do individualismo, que deriva das tendências pessoais e das convicções. O que eu chamo depreciativamente de exercício ‘interior’ do individualismo, interior e menos profundo, era aquele em que vivíamos, nascido apenas da preliminar perniciosa de que era preciso ser diferente, já conseguia duvidar da torre de marfim, mas não passava duma derivação dela, e propunha abertamente o slogan ‘nada de grupo! nada de escolas!’, feito sapos que se quisessem elefantes, gorgolejando ‘eu sou eu!’… Vocês precisam amar o vosso grupo e não será invejar demais se me ponho antes de mais nada amando o grupo de vocês e refazendo nele o que eu nunca pude ter. Não é inveja, é saudade.”

Mário de Andrade escreveu a carta em 25 de setembro de 1944. Se você, como eu, saiu deste artigo com mais perguntas que respostas, fique tranquilo. A inteligência colaborativa apenas começou: e nada indica que ela irá se tornar o paradigma do conhecimento no século 21. Lembre-se que às vanguardas artísticas do século 20 seguiu-se a barbárie nazista; para cada onda de liberdade, uma ressaca de repressão… Caso queira uma iluminaçãozinha que seja, aqui vai uma, apoiada em lugar-comum: nada substitui o talento. Porém, também o talento não substitui o nada que circunda uma inteligência solitária. Isso é tão óbvio como dois e dois são cinco. Certo, Roberto.

fonte: http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/085/mente_aberta/conteudo_507773.shtml



alissa Abaixo o link do curso-wiki de arte gráfica  migrado do ead de Minuano com PDF pra download:

https://ecoaecoa.wordpress.com/curso-de-graficolivre/

A wiki dele está aqui.

http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page=Usu%C3%A1rio_alissagott

Partycipe da produção desse tutorial se apropriando das ferramentas livres citadas nele…

Continuamos a Escola Auto-didata linkando nossos blogs…

Programa inicial do curso:

https://ecoaecoa.wordpress.com/programa_oficina_grafico/

Abraço Sináptico

Alissa



et cetera