Sabermídia











Pessoal,
Estive pesquisando o significado do conceito cultura de colaboração e vi que não tem nada na wikipédia ainda, porisso convído-os a colocarmos lá.
Durante a pesquisa encontrei esse livro e achei esse artigo um dos melhores. Dêem uma lida, disponibilizei ele abaixo.
Depois de lerem quem quiser contribuir com a pesquisa para publicação na wikipédia é só responder esse mail escrevendo com suas palavras o significado do conceito cultura de colaboração. Apartir da coleta de respostas vou iniciar a definição do conceito lá na wikipédia sitando o livro abaixo como referência.

AbraçO coletivo

Alissa Gottfried
Educadora digital
Pontão Minuano.org

Texto extraído do livro “Além das redes de colaboração – internet, diversidade cultural e tecnonogia do poder.”
download do livro aqui

João Brant

O lugar da educação no
confronto entre colaboração
e competição

Em 2007, a Câmara de Comércio Americana (AmCham) pôs em
prática, em escolas de primeiro grau de São Paulo, um projeto contra a
pirataria, voltado para crianças e adolescentes de 7 a 15 anos. Em parceria
com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, os cursos miravam
um público em idade de formação de valores, que alguns anos depois
adentra a faixa etária que é hoje a maior consumidora de produtos piratas,
aquela de 16 a 24 anos.
A iniciativa bélica da AmCham é apenas mais um capítulo de uma
guerra que se luta em vários fronts. De um lado, a colaboração e o
compartilhamento; de outro, a competição e o aprisionamento, ou a
privatização do conhecimento. Por trás dessa disputa, há uma lógica de
apropriação capitalista que tem de apelar à criação de escassez artificial
para sobreviver. Para entender essa dinâmica, vale a pena explorar
rapidamente a natureza das economias de rede.
a transformação da informação
em mercadoria
Economias de rede lidam essencialmente com informação1, que é
um bem intangível e não-rival. Como já visto nos capítulos anteriores,
isso significa que, diferentemente de bens tangíveis, o fato de uma pessoa
consumi-lo não priva os outros de também consumir. Isso significa que

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não há escassez natural, como no caso dos bens tangíveis, e que, portanto,

o mecanismo de preços não é suficiente para governar o mercado. Mais

do que isso, os custos majoritários são os custos fixos, para produzir a

“primeira unidade”; o custo marginal, por sua vez, tende a zero2.

Deixado dessa forma, há uma tendência a um superconsumo e uma

falta de incentivos para o mercado produzir esse bem, o que é uma má

notícia para aqueles que planejam explorar economicamente esse setor.

Assim, sob a lógica de mercado, para gerar valor de troca para a

informação, é preciso criar escassez artificial. Nicholas Garnham (1990,

p. 40) descreve os quatro principais mecanismos de criação de valor de

troca na comunicação: a proteção dos direitos de cópia; o controle de

acesso (seja por meio de um controle direto, como bilheteria ou senha,

seja por controle dos meios de distribuição, como no caso da TV a cabo),

a obsolescência programada (como no caso dos jornais diários) e,

finalmente, a associação do produto a um outro produto que tem valor de

troca (como no caso dos programas de TV em que a potencial audiência

é vendida para o anunciante). Independentemente do método utilizado, o

desenvolvimento e o controle da rede de distribuição são fundamentais

para garantir lucros. (GARNHAM, 2000, p. 59)

Essa dependência da escassez artificial faz com que haja uma

constante briga dos que querem lucrar nesse mercado: para transformar

a informação, um bem intangível e não-rival, em mercadoria, luta-se

“contra a natureza”. O aprisionamento do conhecimento torna-se condição

para a sua exploração econômica. É isso que exemplos como o curso da

AmCham querem tornar natural.

O entendimento da educação formal como um campo estratégico

de batalha reflete as potencialidades desse espaço. Nessa batalha entre

colaboração e competição, a educação, aqui como em diversos casos, pode

ser o instrumento que propicia condições para a conquista da autonomia

política ou pode, na segunda face da mesma moeda, ser simplesmente o

aparelho ideológico do Estado em que se reproduz a ideologia dominante.

Essa disputa de modelos não é nova e sempre esteve presente, inclusive

dentro da pedagogia. Nada há de novo na opção entre uma educação

cartorial e participativa, entre uma avaliação punitiva e como instrumento

pedagógico construtor de referências. A novidade é o ganho de espaço de

uma lógica comercial competitiva, disfarçada sob um véu de educação

pela proteção de direitos.

70 Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder

No entanto, as tropas avançam também do lado de cá. Se no cenário

da educação há um avanço da lógica competitiva, em um cenário mais

amplo, a lógica colaborativa retoma espaço. As possibilidades de

desenvolvimento e a arquitetura de construção de saberes permitidas

pela internet fazem com que o compartilhamento e a colaboração saiam

da posição desfavorável na qual estiveram no último século. Aquilo que o

avanço do capitalismo havia escamoteado retoma forças como fruto,

inclusive, do próprio desenvolvimento capitalista.

disputa sobre a tecnologia

Esse terreno da internet evidencia que a tecnologia passa a ser, ela

mesma, um componente político fundamental, sobre o qual se dá parte

dessa batalha entre competição e colaboração. Dependendo da forma como

é arquitetada essa tecnologia, dependendo dos códigos, dos aplicativos e

protocolos utilizados, está se condicionando o uso dessa tecnologia. A

comunidade de software livre é talvez o exemplo mais evidente de uma

apropriação social da tecnologia que a modifica e reinventa, adaptando-

a a um modo de produção e buscando livrá-la do aprisionamento. Ao

fazer isso, quebra a lógica da informação como mercadoria e desfaz a

possibilidade de sua apropriação comercial. Nessa batalha, além de ser

um ator político, em alguns casos a tecnologia chega a ser um componente

jurídico. Restrições que não estão em lei – por exemplo, em relação à

propriedade intelectual – tornam-se regras impostas por dispositivos

tecnológicos. Nas palavras de Lessig (1999), o código torna-se a lei.

A tecnologia nada mesmo tem de neutra. Ela pode ser entendida

como resultado da interação de forças sociais, econômicas, políticas e

culturais, que ao se estabelecer afirmam e reforçam os valores que vão

dominar nessa complexa resultante. Mais além, o seu uso e a forma como

é apropriada continuam a definir “o lugar” das tecnologias nessa batalha.

Assim, da mesma maneira que a tecnologia pode aprisionar, ela também

pode libertar. Nessa disputa entre modelos competitivos e colaborativos,

a conquista da autonomia tecnológica passa a ter um papel essencial.

Interessante é que essas novas formas de apropriação da tecnologia

e novas práticas de produção cultural ajudam a desmascarar certas

práticas da educação formal. A idéia de um professor que escreve duas

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Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder

lousas (ou dois quadros-negros, dependendo de onde se esteja no Brasil),

lê todo aquele conteúdo, faz os alunos copiarem e termina a aula, mostra-

se cada vez mais fora do lugar. Num cenário em que a informação é cada

vez mais abundante, fica evidente que a questão central não é a simples

disponibilização da informação, mas, sim, a facilitação de processos de

aprendizagem em que a seleção e a organização da informação brigam

contra um déficit de atenção. Nesse contexto, o professor se torna

essencial como facilitador, animador ou mediador de processos. Seu papel

de provedor unilateral de informação vai perdendo espaço. Assim seja.

a mídia e o professor

Nesse cabo-de-guerra entre colaboração e competição, os meios

de comunicação ocupam lugar central, como arena de várias das batalhas3.

A mídia é hoje um dos espaços públicos proeminentes, central para a

realização da democracia, em que circulam idéias e valores e onde a

sociedade se apropria da informação e da cultura, num processo de

constante (re)significação.

Para entender esse cenário, é preciso compreender sua gramática,

seus símbolos, suas regras. Por um lado, é na própria experiência e no

exercício cotidiano de relação com os meios de comunicação que a

juventude se desenvolve. E isso não significa mais uma relação passiva

com um aparelho de TV mas uma relação ativa com um computador, com

,

a internet e com os games. Por outro lado, essa “escola da vida” traz com

ela todas as perversidades típicas de um cenário em que um jovem cidadão

é inserido num contexto capitalista típico, de formação de mercados e

conquista de consumidores.

Aqui, a plena autonomia (ou o mais próximo possível disso), inclusive

em relação ao próprio mercado, depende de processos educativos nos

quais a escola e o professor têm papel central como organizadores de um

olhar crítico revelador dessas perversidades. As manifestações da geração

“alt + tab” são estruturantes de uma nova forma de exercício da cultura,

e é justamente por isso que elas precisam ser compreendidas: para

poderem ser discutidas e permanentemente questionadas, não em um

exercício de negação, mas num exercício constante de olhar crítico

(re)significante. Esse olhar pode, inclusive, estimular uma apropriação

72 Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder

criativa dessas tecnologias, em que práticas colaborativas ganham espaço

sobre simples exercícios competitivos.

O problema é que, nesse cenário de alta complexidade, há gerações

inteiras de professores e professoras que, por não compreenderem as

arenas da mídia, adotam a pura negação e a crítica como simples olhar

externo desconstrutor. Para uma geração da juventude forjada nessas

referências, ser submetida a um olhar simplista sobre as mídias e sobre

as tecnologias é a revelação de uma fraqueza que contribui para a negação

cada vez maior da escola como espaço de aprendizagem que possa ir

além da formalidade. Assim, se experiência é parte essencial, mas

absolutamente insuficiente, do exercício da autonomia, a crítica depende

do reconhecimento dessa experiência para que possa se estabelecer.

em conclusão

A compreensão do papel da educação na luta pela prevalência da

colaboração e do compartilhamento sobre a competição e o aprisionamento

do conhecimento depende da elaboração sobre esse conjunto de fatores.

É preciso libertar a própria educação dos modelos de competição e

aprisionamento do conhecimento que a cercam e identificar como ela

pode ser um fator de reforço da liberdade ou do aprisionamento do

conhecimento. A defesa da liberdade do conhecimento não é uma simples

questão de opção ideológica, mas uma postura a favor da luz e contra as

trevas.

Assim, segue sendo essencial entender o modo como se organiza a

apropriação capitalista da informação e do conhecimento, e sua

dependência de escassez artificial, e identificar o papel da tecnologia

como componente político fundamental, longe de uma suposta

neutralidade. Num cenário em que a internet e os meios de comunicação

se colocam como arena de várias batalhas entre colaboração e

aprisionamento, cabe à educação funcionar como um espaço de crítica e

(re)significação – papel que, aliás, sempre coube a ela em relação a todos

os processos.

A defesa da liberdade do conhecimento representa a afirmação de

uma nova cultura que resgata os valores da colaboração e do

compartilhamento – tão antigos quanto atuais –, em enfrentamento a

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Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder

uma cultura arcaica, a qual se afirma pela tentativa de aprisionar

artificialmente o conhecimento que é livre por natureza.

notas

1 Informação é entendida aqui em seu sentido amplo, incluindo qualquer tipo

de imagem, som ou dados.

2 Por exemplo, custa praticamente a mesma coisa para produzir e distribuir

um programa de TV para uma pessoa quanto custa para distribuí-lo para

milhares de pessoas. Mesmo quando os custos marginais não são efetivamente

zero, como quando o bem intangível está embarcado num suporte tangível

para ser vendido (ex.: CD, DVD, etc.), a idéia essencial é que os custos fixos são

altos e os custos marginais são baixos.

3 Essa nomenclatura bélica não é a única referência possível e corre o risco

de ser simplista, mas funciona bem para descrever o atual cenário em que

lógicas opostas buscam ocupar os mesmos espaços.

referências

GARNHAM, N. Capitalism and communication: global culture and the economics

of information. London ; Newbury Park : Sage Publications, 1990.

______. Emancipation, the media, and modernity: arguments about the media

and social theory. Oxford ; New York : Oxford University Press, 2000.

LESSIG, L. Code and other laws of cyberspace. New York : Basic Books, 1999.



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